A vida sempre é o desconhecido

Extraído do livro “Coragem – o prazer de viver perigosamente”, Osho.

“O ego te rodeia como se fosse um muro. Convence-te de que te vai proteger te rodeando. É a sedução do ego. Repete-te uma e outra vez: «Se eu não estiver, não estará protegido, estará muito vulnerável, haverá muitos riscos. Deixa que te proteja, deixa que te rodeie. »

Sim, o ego te dá um certo amparo, mas o muro também se converte em sua prisão. Há um certo amparo, do contrário, ninguém sofreria a infelicidade que te produz o ego. Há um certo amparo, protege-te contra os inimigos, mas também te protege contra os amigos.

É como fechar a porta e te esconder detrás porque tem medo ao inimigo. Se chegar um amigo se encontrará com a porta fechada, não poderá entrar. Se tiver muito medo ao inimigo, o amigo tampouco poderá entrar. Se abrir a porta ao amigo, há riscos de que entre também o inimigo.

Terá que pensar muito nisto, é um dos problemas maiores da vida. E só alguns corajosos o abordam corretamente, o resto se acovarda e se esconde, e assim perdem toda sua vida.

A vida é arriscada, a morte não tem riscos. Morre, e já não tem problemas nem te vai matar ninguém, porque como lhe vão matar se já está morto? te coloque em uma tumba e terminaste! Não haverá enfermidade, não haverá sofrimento, não haverá nenhum problema, terá-te tirado de cima todos os problemas.

Mas se estiver vivo, haverá milhões de problemas. quanto mais viva está uma pessoa, mais problemas tem. Mas isto não é mau, porque brigar com os problemas, lutar com o desafio, é a forma de crescer.

O ego é um muro sutil a seu redor. Não permite que entre ninguém dentro de ti. Sente-se protegido, seguro, mas esta segurança é como a morte. É a segurança da planta dentro da semente. A planta tem medo de brotar, porque quem sabe?, O mundo é muito perigoso e a planta é tão débil, tão frágil. Atrás do muro da semente, escondida na cela, está protegida.

Imagine a um bebê no ventre de sua mãe. Tem tudo o que necessita, qualquer que seja a necessidade, esta se verá coberta imediatamente. Não há preocupações, não há luta, não há futuro. O menino é ditoso. A mãe cobre todas suas necessidades.

Mas você gostaria de ficar para sempre no ventre de sua mãe? Protege-te. Se lhe dessem a escolher, permaneceria sempre no ventre de sua mãe? É muito cômodo, o que pode haver mais cômodo? Os cientistas dizem que não conseguimos nenhuma situação mais cômoda que o ventre da mãe. Aparentemente, o ventre é o máximo, o último quanto a comodidade se refere. É muito confortável: não há preocupações, não há problemas, não tem que trabalhar. É existência pura. Te provê automaticamente de tudo, surge uma necessidade e em seguida lhe subministram o que necessita. Nem sequer tem que tomar a moléstia de respirar, a mãe respira pelo filho. Não tem que preocupar-se da comida, a mãe come pelo filho.

Mas você gostaria de ficar no ventre materno? É muito cômodo, mas não é vida. A vida sempre é o desconhecido. A vida está fora.

A palavra inglesa «êxtase» é muito significativa. Significa sobressair. Êxtase significa sair, sair de todos os carapaças, de tudo os amparos, de todos os egos e as comodidades, das paredes de morte. Estar enlevado é sair, ser livre, te mover, ser um processo, ser vulnerável para que possam te atravessar os ventos.

Há uma expressão, às vezes dizemos: «Foi uma experiência sobressalente. » Isto é exatamente o significado de êxtase: sobressalente.

Quando se abre uma semente e começa a manifestá-la luz que estava escondida detrás, quando nasce um menino e deixa atrás o ventre, quando deixa atrás todas as comodidades e as vantagens, quando entra em um mundo desconhecido, há êxtase. Quando um pássaro rompe o casca de ovo e voa para o céu, há êxtase.

O ego é o ovo e tem que sair fora. Vive em êxtase! Sal de tudo os amparos, os carapaças e as seguranças. Então, alcançará um mundo mais amplo, mais vasto, mais infinito. Só assim estará vivo, e viverá com abundância.

Mas o medo te paralisa. antes de sair do ventre, o menino também está duvidando se sair ou não. Ser ou não ser? Dá um passo adiante e outro atrás. Possivelmente por isso a mãe tem que padecer tanto dor. O menino duvida, o menino não está preparado para viver em êxtase. O passado atira para trás e o futuro para diante, o menino está dividido.

Este é o muro da indecisão: aferrar-se ao passado, aferrar-se ao ego. E o leva a todas partes. Às vezes, em estranhos momentos, quando está muito acordado e muito vivo, será capaz de vê-lo. Do contrário, embora seja um muro muito transparente, não será capaz de vê-lo. Pode viver muitas vidas —não uma só vida, a não ser muitas— sem te dar conta que vive em uma cela isolada, sem janelas, o que Leibnitz chamava «mónada. Sem portas nem janelas, está encerrado dentro mas é transparente, é um muro de cristal.

Deve renunciar a seu ego. Tem que te armar de valor e estelar o contra o chão. A gente segue alimentando o de milhões de formas, sem saber que estão alimentando seu próprio inferno.”

O AMOR NÃO É UMA RELAÇÃO, É UM ESTADO

Extraído do livro “Coragem – O prazer de viver perigosamente”, Osho.

“O amor não é uma relação. O amor é um estado; não tem nada que ver com ninguém mais. Um não se apaixona, a gente é amor. É obvio, se for amor está apaixonado, mas esse é o resultado, a conseqüência, mas não a origem. A origem é que é amor.

Quem pode ser amor? Evidentemente, se não ser consciente de quem é, não poderá ser amor. Será medo. O medo é exatamente o contrário do amor. Recorda que o ódio não é o contrário do amor, como a gente pensa. O ódio é amor ao reverso, não é o contrário do amor. O contrário do amor realmente é o medo. Com o amor te expande, com o medo te encolhe. Com o medo te fecha, com o amor te abre. Com o medo duvida, com o amor confia. Com o medo fica em solidão. Com o amor desaparece; desvanece-se a questão da solidão. Se não existir, como te pode sentir sozinho? Então, estas árvores, os pássaros, as nuvens, o sol e as estrelas estão dentro de ti. O amor é quando conhece seu céu interno.

Os meninos não têm medo; os meninos nascem sem medo. Se a sociedade pode lhes ajudar e lhes apoiar para que permaneçam sem medo, se lhes ajudar a subir às árvores e às montanhas, e a nadar no mar e os rios —se a sociedade pode lhes ajudar com todos seus meios a ser aventureiros, aventureiros do desconhecido, e se a sociedade pode provocar uma busca em vez de lhes dar crenças mortas então, os meninos se voltarão grandes amantes, amantes da vida. Esta é a verdadeira religião. Não há maior religião que o amor.

Medita, dança, canta e aprofunda mais em ti mesmo. Escuta aos pássaros mais atentamente. Olhe as flores com assombro, com admiração. Não te volte erudito, não etiquete as coisas. Isso é a erudição, a maravilhosa arte de etiquetá-lo tudo, catalogá-lo tudo. Conhece gente, te mescle com a gente, com toda a gente que possa, porque cada pessoa expressa uma faceta de Deus distinta. Aprende das pessoas. Não tenha medo, a existência não é seu inimigo. A existência te cuida, a existência está disposta a te apoiar de todas as formas possíveis. Confia e começará a sentir um considerável aumento de energia. Essa energia é amor. Essa energia quer benzer a toda a existência, porque quando está nessa energia se sente bento. E quando um se sente bento, o que outra coisa pode fazer a não ser benzer a toda a existência?

O amor é um profundo desejo de benzer a toda a existência.”

Essa espera é a transformação

Pergunta a Osho:

Eu não sou rica nem tenho tudo de que preciso. Mas, mesmo assim, eu me sinto sozinha, confusa e deprimida. Existe alguma coisa que eu possa fazer quando esse tipo de depressão acontece?

Se está deprimida, fique deprimida; não “faça” nada. O que você pode fazer? Qualquer coisa que faça, fará por causa da depressão e isso a deixará mais confusa. Você pode rezar a Deus, mas rezará de modo tão deprimente que deixará até Deus deprimido com as suas orações!

Não cometa essa violência contra o pobre Deus. A sua oração será uma oração deprimente. Como você está deprimida, qualquer coisa que fizer virá acompanhada de depressão. Causará mais confusão, mais frustração, porque você não vai ser bem-sucedida. E, quando não é bem-sucedida, você fica mais deprimida, e esse é um ciclo sem fim.

É melhor ficar com a depressão original do que criar um segundo ciclo e depois um terceiro. Fique com o primeiro; o original é belo. O segundo será falso e o terceiro será um eco longínquo. Não crie esses últimos dois. O primeiro é belo.

Você está deprimida, portanto, é assim que a existência está se manifestando para você neste momento. Você está deprimida, então continue assim. Espere e observe. Você não vai poder ficar deprimida por muito tempo, porque neste mundo nada é permanente.

Este mundo é um fluxo. Ele não pode mudar as suas leis básicas por você, de modo que possa continuar deprimida para sempre. Nada aqui é para sempre; tudo está em movimento e em mudança. A existência é um rio; ela não pode parar para você, para que você possa continuar deprimida para sempre. Ela está em movimento — já mudou. Se você observar a sua depressão, verá que nem ela é a mesma; é diferente, está em mutação.

Só observe, continue com ela e não faça nada. É assim que a transformação acontece: por meio do não-fazer.

Sinta a depressão, prove-a em profundidade, vivencie-a, esse é o seu destino — quando menos esperar você sentirá que ela desapareceu, porque a pessoa que aceita até mesmo a depressão não pode ficar deprimida.

A pessoa, a mente que consegue aceitar até a depressão não permanece deprimida! A depressão precisa de uma mente sem aceitação: “Isso não é bom, isso não é nada bom; isso não devia ter acontecido, não devia; as coisas não deveriam ser desse jeito”. Tudo é negado, é rejeitado — não aceito.

O “não” é a reação básica; até a felicidade será rejeitada por uma mente como essa. Essa mente descobrirá algo para rejeitar a felicidade também. Você ficará em dúvida quanto a ela. Sentirá que algo está errado. Estará feliz, por isso achará que existe alguma coisa errada: “Bastou meditar durante alguns dias para eu ficar feliz? Isso não é possível!”

A mente sem aceitação não aceita nada. Mas, se conseguir aceitar a sua solidão, a sua depressão, a sua confusão, a sua tristeza, você já estará transcendendo. Aceitação é transcendência. Você eliminou o próprio motivo da depressão, então ela não pode continuar.

Experimente isto:

Seja qual for o seu estado de espírito, aceite-o e aguarde até que esse estado mude por si só. Você não estará mudando nada, poderá sentir a beleza que se assoma quando o seu estado de espírito muda naturalmente. Você verá que é como o sol nascendo pela manhã e se pondo à noite. Então, mais uma vez ele se elevará no céu para depois se pôr à noite, e assim dia após dia.

Você não precisa fazer nada a respeito. Se conseguir sentir os seus estados de espírito mudando naturalmente, você vai ficar indiferente. Vai ficar a quilômetros de distância, como se a mente estivesse em outro lugar. O sol está nascendo e se pondo; a depressão está surgindo, a felicidade está surgindo, depois indo embora, mas você não está participando disso. Ela vem e vai embora por conta própria; os estados irrompem, mudam e desaparecem.

Com a mente confusa, é melhor esperar e não fazer nada, para que a confusão desapareça. Ela vai desaparecer; nada é permanente neste mundo. Você só precisa de muita paciência. Não tenha pressa.

Eu lhe contarei uma história que eu sempre repito. Buda estava atravessando uma floresta. O dia estava quente — o sol estava a pino — ele tinha sede, por isso pediu ao seu discípulo Ananda, “Volte. Nós cruzamos um córrego. Volte e pegue um pouco de água para mim”.

Ananda voltou, mas o córrego era estreito demais e algumas carroças estavam passando por ele. A água, agitada, tinha ficado barrenta. Toda a sujeira do fundo viera à superfície, tornando a água imprópria para consumo. Então Ananda pensou, “Terei de voltar de mãos vazias”. Ele voltou e disse ao Buda, “A água ficou barrenta, não dá para beber”. Deixe-me seguir na frente. Sei que há um rio a alguns quilômetros daqui, eu irei até lá e buscarei água”.

Buda disse, “Não! Volte ao córrego”. Ananda voltou para não desobedecer ao Buda, mas foi contrariado. Ele sabia que a água não ficaria límpida outra vez e que iria apenas desperdiçar seu tempo, além de estar com sede também. Mas ele não podia desobedecer ao Buda. Mais uma vez voltou ao riacho para em seguida refazer o trajeto e dizer a Buda, “Por que o senhor insiste? A água não é potável!”

Buda disse, “Vá outra vez”. E como ordenou Buda, Ananda aquieceu.

Na terceira vez que ele voltou ao riacho, a água estava cristalina como de costume. A sujeira tinha baixado, as folhas mortas descido rio abaixo e a água estava límpida outra vez. Então Ananda riu. Ele encheu seu cântaro de água e voltou dançando. Ao chegar, caiu aos pés do Buda e disse, “Os seus métodos de ensino são miraculosos. Você me ensinou uma grande lição — que só é preciso ter paciência e que nada é permanente”.

E esse é o ensinamento básico do Buda: nada é permanente, tudo é transitório, então para que se preocupar? Volte ao mesmo riacho. Agora, tudo já deve ter mudado. Nada continua igual. Tenha simplesmente paciência e a sujeira vai se assentar, a água vai ficar cristalina outra vez.

Ananda também tinha perguntado ao Buda, depois de voltar do córrego pela segunda vez, “Você insiste para que eu vá, mas eu posso fazer alguma coisa para que a água fique mais limpa?”

Buda disse, “Por favor, não faça nada; do contrário, você a deixará mais enlameada ainda. E não entre no córrego. Fique apenas do lado de fora, esperando na margem. Se entrar, você só piorará as coisas. O córrego flui naturalmente, portanto, deixe-o fluir”.

Nada é permanente; a vida é um fluxo. Heráclito disse que você não pode entrar no mesmo rio duas vezes. É impossível entrar duas vezes no mesmo rio porque o rio nunca pára de fluir; tudo já terá mudado. E não só o rio flui, você também flui. Você também estará diferente; você também é um rio fluindo.

Veja essa impermanência de tudo. Não tenha pressa; não tente fazer coisa alguma. Apenas espere! Espere num total não-fazer.

E, se conseguir esperar, a transformação acontecerá. Essa espera é a transformação.

Osho, em “Saúde Emocional: Transforme o Medo, a Raiva e o Ciúme em Energia Criativa